O VESTIDO PRETO
Terça-feira, Junho 22nd, 2010Olá! Feriado. Chove no Verão, nada há para fazer e mesmo que houvesse as forças são poucas. O cheiro a sardinhas ainda se espalha pelas ruas da Graça depois de mais uma noite louca de Santo António. A ressaca devido à sangria com vinho carrascão é enorme, decadente mesmo, e transporto em mim um cartaz onde se pode ler: fora de serviço! Toca o telefone que infelizmente esqueci de desligar, oiço a voz da minha mãe do outro lado:”Filho vem almoçar com a Mãe e depois vamos às compras”. O primeiro e único impulso foi dizer não, o meu sofá chama por mim, quero arrastar-me o dia todo! Poderá, no entanto, um filho dizer não a um pedido de uma mãe? Sim poderá, mas lá acedi. Compras num feriado, milhares de pessoas nas lojas, eis o meu castigo por não ter beijado a senhora dos Frangos como ela tanto queria! Meto-me no carro e transporto-me com os olhos meio fechados!
Lanidor um dos paraísos para muitas mulheres, segundo consta, o inferno absoluto para os homens. Assumo que o inferno se transforma em algo psicótico e deprimente, quando estão a fazer saldos de 50% e estão 60 mulheres tresloucadas dentro de uma loja de 20 m2. Vejo dois homens na mesma situação que eu. Os seus olhos amargurados devido ao sofrimento quase insuportável de estarmos perante um cenário diabólico, são disfarçados por um pequeno sorriso de solidariedade, envolto na esperança que algumas das bruxas comecem ao estalo por causa do vestido preto que parece fazer um enorme sucesso. Ver um combate ao vivo, entre estalos, mordidelas e puxões de cabelo até poderia ser interessante. Tragam a lama, os biquínis e poderemos passar do inferno ao céu em poucos minutos. “Filho, chega aqui, vem dar-me a tua opinião”. Pronto, acordei para a vida!
Quando dou por mim tenho dois vestidos na mão. Um preto e outro com uma cor que desconheço, assim a dar para o branco, mas mais escuro, sei lá! Fecho os olhos por momentos e imagino a Meg Ryan a sorrir para mim, avançando na minha direcção de braços abertos e uma sensação de prazer ameniza a minha angústia. Enquanto temos de esperar meia hora para a minha mãe poder entrar no provador, decido pousa-los numa prateleira. Má decisão, deveras. Do nada surge uma bruxa e começa a observa-los. As unhas transformam-se em garras e avança ferozmente, já a salivar. Tenho de tomar uma atitude, proteger o meu território e digo: “Estes são meus”. Ela faz um rugido, olha-me com desdém e dá meia volta. Medo, tive medo e como se não bastasse ainda afirmei que os vestidos são meus! Olho para o lado e tenho a minha mãe perdida de riso. Cheguei ao fundo do poço, não há volta a dar!
Finalmente a minha querida e linda progenitora consegue experimentar os ditos. Encosto-me a uma estante onde milhares de peças amarrotadas se acumulam num cenário de devastação, guerra, horror. Olhares femininos procuram perceber o que faço ali parado. Acredito, pela forma como me olham, que pensem que à noite me transformo num travesti gostoso que vagueia pelas ruas de Lisboa, mas, se assim fosse, à espera de senhoras lesbianas, claro. E sim, ainda seguro mais dois vestidos que deverei disponibilizar quando forem solicitados. Atrás de mim sinto uma bruxa quase colada a mim. Pergunto-me o que espera, o que faz ali parada. Não, não pode ser, ela não pode estar a pensar que estou na fila à espera. Universo por favor não deixes que tal aconteça, seria a decadência pura, literalmente nunca mais seria o mesmo! Desvio-me ligeiramente e oiço a frase pela qual temi: “Não está na fila?” Incrédulo apenas disse: “Estou minha gorda, quero ver se estes me ficam bem!”
Até já
PaiBuda
